O SindProfNH esteve presente no II Encontro Nacional de Educação, que aconteceu na UnB, em Brasília, nos dias 16 a 18 de junho.
Mais de duas mil pessoas assistiram a mesa de abertura, que teve como tema "Por um projeto classista e democrático de educação, contra o Ajuste Fiscal e a dívida pública".
A atividade de abertura teve início com a fala de José Villarroel, estudante chileno e
representante do Centro de Estudantes de Sociologia da Universidade Alberto
Hurtado. Ele começou sua intervenção dizendo que sua universidade, assim como
muitas outras instituições privadas do Chile, está em greve há três semanas e
ocupada há uma semana. Então, rememorou o processo de lutas estudantis no
Chile, que vem desde 2006, com a chamada “Revoluções dos Pinguins”, e grandes
ocupações de escolas.
José explicou que a ditadura
de Augusto Pinochet (1973-1990) aplicou diversos ajustes do capitalismo, entre
eles a privatização da educação, cujo acesso era livre à população chilena
antes do golpe de estado. Com a volta da democracia, a privatização da educação
se aprofundou, levando estudantes a um grande endividamento para estudar, mesmo
nas poucas instituições públicas.
De
acordo com José, uma carreira de ensino superior no Chile custa, tanto em
universidades públicas quanto privadas, em torno de R$ 60 mil, e, com a política
de crédito estudantil, chega a R$ 80 mil. “Os chilenos se formam, e trabalham
até os 40, 50 anos, para poder pagar por sua educação. É por isso que os
estudantes chilenos lutam há dez anos, realizando manifestações massivas todos
os anos”, disse o estudante.
José Villarroel
encerrou sua fala criticando o governo de Michele Bachellet, atual presidente
chilena, por sua política de conciliação de classes. O estudante também citou a
grande repressão à qual o estado chileno submete os estudantes que lutam por
uma educação pública e gratuita, afirmando que é necessário construir a luta de
forma autônoma a governos.
Ajuste fiscal
Mauro Puerro, da Secretaria Executiva Nacional (SEN) da CSP-Conlutas e representante do Comitê Nacional “Em defesa dos 10% do PIB para a educação pública,já!”, abordou a relação da dívida pública com o ajuste fiscal. O sindicalista citou diversos cortes de orçamento em áreas sociais, realizados no governo de Dilma Rousseff e de Michel Temer, avaliando que a motivação dos cortes é aumentar a destinação de recursos públicos para a dívida pública.
O
dirigente da CSP-Conlutas então explicou o Projeto de Lei Complementar (PLP)
257/2016, o qual caracterizou como um conjunto de medidas que favorecem o
pagamento da dívida pública e retiram direitos dos trabalhadores, em um
primeiro momento dos servidores públicos de todas as esferas e, posteriormente,
de toda a classe trabalhadora, ao suspender o aumento real do salário mínimo.
Puerro citou, também,
dois pontos do PLP que beneficiam diretamente os empresários em detrimento dos
trabalhadores. São eles: a alteração da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF)
para transformar o estado brasileiro em uma espécie de segurador para
investimento de empresas a nível nacional e internacional; e a transformação da
sobra de caixa de banco em títulos da dívida pública, remunerando duplamente os
banqueiros.
Para Mauro Puerro, as
greves de servidores públicos estaduais de norte a sul do país, e as ocupações
de escolas e universidades, são a demonstração do crescente repúdio da classe
trabalhadora à essa lógica política e econômica. Ele encerrou sua fala
conclamando os presentes à organização política para lutar contra retirada dos
direitos, citando o Projeto de Emenda Constitucional (PEC) apresentado essa
semana pelo governo interino, que traz um limite de gastos sociais para o
orçamento da união, estados e municípios.
Educação
Olgaíses Maués, diretora do ANDES-SN e também representante do Comitê Nacional “Em defesa dos 10% do PIB para a educação pública,já!”, focou sua fala na situação da educação brasileira. A docente criticou Mendonça Filho, ministro da educação do governo interino, por ocupar a pasta sendo alheio à área, demonstrando o caráter de negociata dos cargos. Ela citou, também, diversas medidas neoconservadoras, que tem demonstrado retrocesso social, como o Projeto Escola Sem Partido, a negação do uso do nome social e a lei anti-greve.
Olgaíses Maués, diretora do ANDES-SN e também representante do Comitê Nacional “Em defesa dos 10% do PIB para a educação pública,já!”, focou sua fala na situação da educação brasileira. A docente criticou Mendonça Filho, ministro da educação do governo interino, por ocupar a pasta sendo alheio à área, demonstrando o caráter de negociata dos cargos. Ela citou, também, diversas medidas neoconservadoras, que tem demonstrado retrocesso social, como o Projeto Escola Sem Partido, a negação do uso do nome social e a lei anti-greve.
Para Olgaíses, o ENE
é espaço prioritário para dar voz às críticas à educação brasileira e construir
um novo projeto, democrático e classista, de educação pública. Para ela, os
últimos governos tiveram como projeto de educação a privatização, primeiro com
foco no nível superior, e, agora, também aprofundando a privatização na rede
básica – exemplo disso é o dado de que 74% das matrículas em ensino superior
são em instituições privadas.
A priorização de
recursos públicos para a educação privada, diz Olgaíses, também pode ser
exemplificada por meio do Programa Universidade Para Todos (Prouni), que, só em
2015, destinou R$ 1 bilhão à educação privada por meio da isenção de impostos,
e do Programa de Financiamento Estudantil (Fies) que, no mesmo ano, repassou R$
15 bilhões à educação privada por meio de empréstimos de dinheiro público a
estudantes.
Olgaíses Maués
criticou também as parcerias público-privadas na educação, citando a aprovação
do Marco Legal de Ciência, Tecnologia e Inovação e o crescimento da gestão da
educação básica por Organizações Sociais (OS) como exemplos dessa forma de
privatização velada. A diretora do ANDES-SN encerrou sua intervenção afirmando
que, feita a crítica, é necessário apontar para outro caminho da educação pública
no Brasil. “Educação deve ser a base da emancipação humana, deve ajuda a
pensar, e não a obedecer”, concluiu a docente.
Os períodos da tarde
e noite desta sexta-feira (17), do II Encontro Nacional de Educação (ENE),
foram reservados para as discussões dos grupos de trabalhos. A atividade
complementou o dia, que teve pela manhã a mesa de abertura com o tema “Por um
projeto classista e democrático de educação, contra o ajuste fiscal e a dívida
pública”.
Divididos em cerca de grupos de trabalho, os quase 2 mil
participantes do II ENE discutiram os eixos temáticos: gestão; financiamento;
avaliação; trabalho e formação dos trabalhadores da educação; acesso à
permanência; gênero; sexualidade; orientação sexual e questões étnico-raciais.
A
manhã de sábado (18), no II ENE, foi dedicada a realização de painéis
autogestionados que abordaram diversos temas voltados para a educação.
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Maria Lúcia Fattorelli abordou sobre o sistema da dívida pública |
A proposta dos
painéis é permitir que alguns temas pertinentes à realidade e organização do
setor da educação, entretanto não estão sendo tratados especificamente nas
atividades gerais do encontro. Assim, parcela das entidades organizadoras do II
ENE promoveram as iniciativas que foram abertas a quem quisesse participar.
O II Encontro Nacional de Educação (ENE) terminou na tarde de
sábado (18) com a realização de uma plenária final, na qual foi lida a
Declaração Política – que sistematizou, de maneira unitária e consensual, as
propostas e bandeiras debatidas durante o encontro nacional e os encontros
preparatórios. O II ENE foi realizado na Universidade de Brasília (UnB) de 16 a
18 de junho e reuniu quase dois mil participantes, de maneira praticamente
proporcional entre estudantes, docentes, trabalhadores da educação, assistentes
sociais e movimentos populares.
A
declaração traz uma breve introdução, na qual avalia a conjuntura de
aprofundamento dos ataques do capital aos direitos dos trabalhadores, e
ressalta o crescimento da resistência dos oprimidos, que protagonizam greves,
lutas e ocupações no Brasil e no mundo. Também dedica o II ENE a Márcio Antônio
de Oliveira, ex-presidente do ANDES-SN, que faleceu na segunda-feira
(13). Em seguida, a declaração foi dividida nos seis eixos que nortearam
as discussões do ENE. Avaliação
Em relação à avaliação, foi ressaltado o caráter punitivo, gerencialista e
meritocrata do atual sistema avaliativo da educação brasileira. Em
contraposição, foi apontada a necessidade de aprofundar a autonomia das
instituições de ensino, construindo um processo de avaliação diagnóstico, democrático
e que possibilite o avanço da educação com qualidade.
Trabalho e formação dos
trabalhadores da educação
No eixo de trabalho e formação dos trabalhadores da educação foi defendida a
educação pública, gratuita, laica e de qualidade, assim como a importância da
unidade e articulação entre os trabalhadores da educação. Também foi defendida
a incorporação de movimentos sociais como atores centrais na formulação do
trabalho educativo. Foi ressaltado, também, o repúdio ao Projeto Escola sem
Partido, à precarização do trabalho e à Educação à Distância (EAD).
Acesso e permanência
Quanto ao acesso e permanência, foi constatado que as políticas de assistência
estudantil se resumem ao Plano Nacional de Assistência Estudantil (PNAES), que
não é política de estado e se limita a estudantes de ensino superior. Entre as
demandas levantadas estão: moradias estudantis, creches, passe livre, inclusão
de pessoas com deficiência, universalização do ensino e o fim do vestibular.
Gestão
Já os debates sobre o eixo de gestão culminaram na análise de que é necessário
avançar no que toca à autonomia e democracia nas instituições de ensino, com
paridade na participação de conselhos, eleições democráticas para reitorias e
diretorias de escola. Ressaltou-se, ainda, o caráter antidemocrático e
privatista da imposição da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh)
como gestora dos Hospitais Universitários Federais.
Gênero, sexualidade, orientação sexual e questões
étnico-raciais
No eixo de gênero, sexualidade, orientação sexual e questões étnico-raciais, os
debates apontaram para a necessidade de reconhecimento das demandas de negros e
negras, mulheres, indígenas, ribeirinhos, quilombolas, pessoas com deficiência
e LGBTs nos espaços da educação. A transversalidade das pautas de combate às
opressões ficou explícita com a presença de tais demandas em cada um dos eixos
do II ENE. Foram apontadas demandas como a defesa das políticas afirmativas de
reparação, a defesa do uso do nome social para pessoas trans, assim como o combate
ao Projeto Escola Sem Partido.
Financiamento
Em relação ao eixo de financiamento reafirmou a necessidade de investimento de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) em educação pública imediatamente. O ENE repudiou, ainda, a transferência de recursos públicos para a educação privadas prevista no Plano Nacional de Educação (PNE), propondo a extinção dos programas baseados nessa lógica e a incorporação dos estudantes à rede pública de ensino, além da estatização das instituições privadas.
Tarefas
A Declaração Política do II ENE termina apontando tarefas para a construção da
luta em defesa da educação pública e gratuita. Os participantes do encontro
conclamam a realização de um Dia Nacional de Lutas em Defesa da Educação
Pública e Gratuita em 11 de agosto, dia do estudante. Reafirma posição
contrária à terceirização, ao Projeto de Lei Complementar (PLP) 257/2016, à
Contrarreforma da Previdência, e ao presidente interino Michel Temer, chamando
a construção de uma greve da educação, e também de uma greve geral contra o
ajuste fiscal e o PLP 257/16. Também é reafirmado o repúdio ao PNE 2014-2024,
de caráter privatista.
Por fim, o II ENE
ressalta a importância da manutenção da organização e dos debates de maneira
unitária, em nível municipal, estadual e nacional, com vistas a seguir
construindo um projeto classista e democrático de educação rumo à terceira
edição do encontro, em 2018. Para tal, o “Comitê Nacional da Campanha pelos 10%
do PIB para Educação Pública, Já!” muda de nome, passando a ser Coordenação
Nacional das Entidades em Defesa da Educação Pública e Gratuita. Terminada a
leitura da declaração, a mesa deu por encerrado o II Encontro Nacional de
Educação.
Fonte: ene2016.org
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